selfie-bruno-conteudo-marketing-de-conteudo

Casal 20: Selfie e Narciso

Na cena de abertura do filme Trainspotting, o protagonista Renton – interpretado por Ewan McGregor – apresenta uma narrativa sobre a vida, com uma abordagem um tanto niilista.

O discurso vai de encontro ao materialismo espiritualmente falido, que havia triunfado na Grã-Bretanha ao longo dos anos, sob a batuta de Margaret Thatcher.

Escolha a vida“, aconselha no famoso monólogo. “Escolha a porra de uma televisão grande, máquinas de lavar, carros, CD players e abridores de lata elétricos,” ele continua.

Era um diagnóstico perfeito daquele momento, e seria lembrado para sempre como um epitáfio da cultura pop, sobretudo para marcar um período da história britânica.

Duas décadas depois, o discurso foi atualizado para “escolha o Facebook, Twitter ou Instagram, na esperança de que alguém, em algum lugar, se importe.”

A rede social mudou a maneira como nos comunicamos, facilitou a vitória de Donald Trump, nos separam em bolhas que distorcem a realidade, provoca uma dependência de “vício em likes” no cérebro humano, e ameaça destruir a indústria de notícias.

Listar todas as formas que ela tem alterado o nosso mundo talvez seja algo desnecessário, bem como seus efeitos indiretos. Mas há um argumento bem relevante: ela transformou toda uma geração em narcisistas insípidos.

Hoje as redes sociais tem sido lugar comum para o mantra do egocentrismo. Os barões da Silicon Valley e os adolescentes obcecados pelo Snapchat raramente se aventuram fora de seus quartos, com o argumento de que a mídia social torna o mundo mais interconectado (e ninguém pode negar que ela o faz).

Porém, essas conexões não devem ser confundidas com qualquer tipo de coletivismo.

Todas as plataformas de mídia social são constituídas por uma massa de indivíduos, uns contra os outros, ávidos por seguidores, likes, retweets, reações e qualquer outra forma de aprovação.

É por isso que as pessoas atribuem #likeforlikes e #likes4likes para suas fotos no Instagram. O anseio de legitimação gerou toda uma economia de troca, onde as pessoas se oferecem mundo afora, dispostas a retribuir um engajamento totalmente falso.

O sentimento não importa, desde que o ego seja inflado na mesma medida em que as notificações pulam em suas respectivas telas.

Claro, esse não é o seu único objetivo, e muita interação benigna ocorre sem qualquer tipo de programação. Mas há sim, uma enormidade de usuários que as utilizam como forma de projetar uma melhor versão de si mesmo.

É lógico que esse comportamento revela uma tendência em evoluir para algo mais obsessivo, porém muitas vezes não passa de uma oportunidade em surfar nas hashtags do momento.

Cada evento da sua vida, apesar de irrelevante para os seus seguidores, torna-se uma fonte de conteúdo para auto-promoção.

Considere a ação absolutamente sem sentido de desejar um “feliz aniversário” para o seu pai, mesmo que ele não esteja no Facebook.

Mas por que fazemos isso? É que cada like, share ou retuíte dá ao cérebro uma pequena onda de dopamina.

Eu não quero gerar constrangimento para ninguém ou envergonhar quem quer que seja por um comportamento que é instintivo, quase inconsciente.

Mas esse é o ponto: os gigantes da tecnologia, em silêncio, penetram em nossas mentes e redefinem a maneira como lidamos com a realidade.

Eles desenvolveram uma geração de narcisistas auto-obcecados. E num futuro bastante breve, isso terá um preço!

Obs: Ainda não assisti o seriado original da Netflix, Blackmirror. Tenho uma ideia vaga sobre a sinopse, mas creio que possa ter algum gancho para esse texto.